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25 de Junho de 2021

Nem a estupidez nos convence que somos idiotas: O uso econômico do cânhamo

Wladimir Mattos Albano, Advogado
há 6 anos

Wladimyr Mattos AlbanoGraduado em Química pela UFF/RJAdvogado com Especialização em Direto Público e Tributário pela UCAM/RJ

1. O Mito da “porta de entrada”.

Costumam os leigos blasfemarem que a “porta de entrada” para outras drogas é a maconha (Cannabis sativa ou indica) e dois erros clássicos para derrubar essa falácia são o fato de que a maior parte das outras drogas não é fumada, ou seja, não é introduza pela queima e aspiração da fumaça, e, o segundo é que duas drogas legais são de fato a tal da “porta de entrada” para outras, uma é o álcool e outra é o cigarro, basta uma análise superficial para se chegar a essa conclusão. Mas, se quisermos nos ater ao álcool como exemplo, podemos afirmar que usuários de cocaína (Erythroxylum coca) via de regra carregam junto o histórico de alcoolismo e a primeira fase do tratamento é a interrupção do álcool, da bebida alcoólica, na “dieta”- lembrando que álcool causa dependência física e química – do adicto, seja por dependência ou por hábito.

Logo, essa estória de “porta de entrada” foi cunhada pelos americanos do norte que fizeram uma forte corrente em favor do algodão e desfavor do cânhamo e hoje eles mesmos se utilizam do cânhamo como matéria-prima de uma indústria milionária, deixou de ser “proibido” uma vez que gera riqueza e a partir do momento que vislumbraram que o custo x benefício do cânhamo era vantajoso em relação ao do algodão ou do linho. Nessa história entra a China que produz livremente o cânhamo e sempre o misturou ao algodão porque é vantajoso e a partir disso os EUA voltam atrás quando mensura seu prejuízo em relação aos países asiáticos, mormente a China.

2. Somos mesmo idiotas?

O controle das substâncias legais e ilegais no Brasil é efetuado pelo Ministério da Saúde através da Vigilância Sanitária que por meio da Portaria no 344 de 1978 regula os medicamentos e drogas lícitas e ilícitas, através de listas atualizadas permanentemente.

Acontece que a Portaria da V. Sanitária proíbe o cultivo do cânhamo, ou seja, proíbe o cultivo da Cannabis sem seu princípio ativo, os canabinóides, como THC sendo o principal componente, e, por conta disso é proibido cultivar, se quisermos, a Cannabis para fins de uso comercial, em outras palavras, é proibido cultivar uma planta sem princípio ativo porque o princípio ativo dela é proibido. Há algum sentido nisso? Alguma lógica? Creio que nenhuma lógica e sentido algum posto que um usuário de “maconha” procura nela justamente os princípios ativos e o resto é dispensado pela queima, e, nesse caso, a planta sem princípio ativo, o que menos interessa são os princípios ativos e muito menos a queima, o que interessa é a fibra da planta após desidratada, ou seja, o cânhamo para a produção de artefatos comerciáveis e rentáveis que vão desde o tijolo até o mais fino tecido, passando por outras milhares de utilizações como exemplo a resina que reveste barcos, pórticos e casas de madeira e as sementes que contém proteína e podem ser utilizadas na culinária em dietas variadas.

Logo, indago, seremos mesmo idiotas? Creio que, absolutamente, não, idiota é a frase sem sentido ou lógica que deriva da proibição do cultivo de uma planta sem princípio ativo: “É proibido cultivar Cannabis sem princípios ativos porque os princípios ativos dela são proibidos”, é o cúmulo da estupidez.

3. O que se perde o que se ganha com a legislação caduca e sem lógica.

Eu não vou falar sobre o uso medicinal porque é pior ainda a estupidez brasileira nesse ponto, pois, liberou-se a “importação” de Marinol, derivado da Cannabis com princípio ativo, por conta da pressão dos pacientes portadores de asma, HIV-positivo, câncer etc. Ou seja, vamos comprar dos americanos e bater palmas e dançar quando eles RIREM de nós, “pão e circo”, já estamos acostumados.

Vou discorrer sobre tecidos e cordas, a fibra, e um pouco de sua utilização na indústria e comércio e quem quiser espiar basta ir nesse link: http://www.hemptraders.com/; um dos muitos especializados em fibras de cânhamo e suas utilizações.

A partir do cânhamo, fibra da Cannabis pode extrair-se cerca de 25 mil produtos de uso essencial para a sociedade. Roupas, calçados, produtos de beleza, óleo de cozinha, chocolate, sabão em pó, papel, tintas, isolantes, combustível, material de construção, carrocerias para veículos entre outros produtos garantem que o cânhamo seja uma matéria-prima valiosa para a indústria mundial.

As sementes são nutritivas, contendo alto teor de proteínas e uma abundante quantidade de óleo, o caule é rico em fibras resistentes e a polpa rica em celulose. Seu cultivo não requer maiores cuidados como solo, é uma planta que resiste bem às intempéries e pragas, sendo viável do ponto de vista agrário e comercial.

Alguns países adotaram o uso do cânhamo como fonte de produtos comerciais e industriais:

ÁUSTRIA: Tem uma indústria do cânhamo, incluindo a produção de óleo de cânhamo, medicinais. CANADÁ: Começou a licença de culturas de pesquisa em 1994, numa base experimental. Além de culturas de fibras, uma colheita de sementes foi experimentalmente licenciada em 1995. Muitos hectares foram plantados em 1997. Produz tintas, vernizes e produtos têxteis. CHILE: O cânhamo é cultivado principalmente para a produção de óleo das sementes. CHINA: É o maior exportador de papel de cânhamo e produtos têxteis. DINAMARCA: Teve inicio no cultivo em 1997. Comprometida com a utilização de métodos orgânicos. ALEMANHA: Roupas e papel estão sendo feitas a partir de matérias-primas importadas. A palavra alemã para o cânhamo é Hanf. HUNGRIA: É um dos maiores exportadores de cordas de cânhamo, tapetes e tecidos de cânhamo para os EUA também à exportação de sementes de cânhamo e papel de cânhamo. A palavra húngara para o cânhamo é kender. INDIA: Produz cânhamo para cordas, produtos têxteis e óleos de sementes. JAPÃO: Tem uma tradição religiosa que impõe que o imperador usa roupas de cânhamo, para que haja uma pequena parcela mantida para a família imperial. Eles continuam a importação de tecidos e aplicações artísticas. HOLANDA: Está realizando um estudo de quatro anos para avaliar e testar o cânhamo para o papel, e está desenvolvendo equipamentos de processamento. POLÔNIA: Cultiva cânhamo para tecido e cordas e fabrica painéis de partículas de cânhamo. Eles têm demonstrado os benefícios do uso do cânhamo para limpar solos contaminados por metais pesados. A palavra polaca para o cânhamo é konopij. ROMÊNIA: É o maior produtor comercial do cânhamo na Europa, área total em 1993 foi de 40.000 hectares. Algumas delas são exportadas para a Hungria para processamento. Eles também exportar para a Europa Ocidental e nos Estados Unidos. A palavra romena para o cânhamo é cinepa. RUSSIA: Mantém o cânhamo maior coleção de germoplasma do mundo no NI Vavilov Instituto de Investigação Científica de Fitotecnia (VIR), em São Petersburgo. A palavra russa para o cânhamo é Konoplya. ESLOVÊNIA: Cultiva cânhamo e utiliza na fabricação de papel moeda. ESPANHA: Exportações de celulose para o papel de cânhamo, produz cordas e tecidos. A palavra espanhola para o cânhamo é Cânhamo. SUÍÇA: É um produtor de cânhamo. As palavras Suíça para o cânhamo são Chanvre Hanf, ou Canapa dependendo se você estiver na área de francês, alemão ou italiano falando. EGITO, CORÉIA, PORTUGAL, URUGUAI, TAILÂNDIA e UCRÂNIA também produzem cânhamo.

4. Produtos

TecidosO tecido de cânhamo pode ser obtido a partir de suas fibras, é semelhante ao linho, com a vantagem de ser mais durável e ter baixo custo de produção. É mais confortável que os tecidos sintéticos e, por conta da absorção, causa mais frescor o que confere mais conforto no uso. Diversas grifes usam a fibra de cânhamo em suas roupas, como por exemplo: Adidas, Guess, Calvin Klein alguns ternos Armani. Em 2001, Roupas da Osklen, de fibras de maconha, foram apreendidas por apologia à maconha no Brasil.

Papel

Segundo um relatório da ONU de 1999, esse é o maior potencial da Cannabis. De 1 metro quadrado de uma plantação de cânhamo pode-se adquirir tanto papel quanto 4 metros quadrados de eucalipto e em três vezes menos tempo. Isso porque 77% da sua polpa é formada por celulose pura. Ademais ela cresce muito rápido em aproximadamente 110 dias (de 3 a 4 meses). Estima-se que, no final do século retrasado, até 90% do papel usado no mundo provinha da Cannabis, da qual foi feita a primeira Constituição dos Estados Unidos. Os primeiros livros da revolução de Gutenberg foram impressos em papel de cânhamo, além de muitos exemplares da Bíblia.

Óleo

A semente da maconha além de muito nutritiva fornece um óleo muito útil como solvente de tintas, lubrificantes e cosméticos. Da semente prensada do cânhamo se obtém um óleo que a empresa de cosméticos The Body Shop utiliza como ingrediente central em sua linha de beleza. Essa linha, criada em 1998, sempre esteve envolvida em controvérsias e chamou atenção por sua originalidade e eficiência. A linha é dirigida a pessoas com a pelé seca, para ser usada habitual ou temporariamente. O óleo da semente da maconha para uso alimentar é um dos mais saudáveis, pois possui apenas de 8% a 12% de gordura saturada, responsável pelo aumento de colesterol e causas de infarto. Apenas o óleo da Canola possui índices menores com 7%.

Combustível

A grande concentração de celulose faz do cânhamo uma planta mais indicada que a cana-de-açúcar para extrair energia. Na Alemanha, cientistas investigam outras opções para o petróleo, como os motores que queimam óleo de cânhamo, isso só é possível graças a um relaxamento das leis germânicas. Essa descoberta não é absolutamente nova, pois a Ford já nos anos trinta construiu um veículo diesel alimentado com óleo de cânhamo. Em pouco tempo o cânhamo foi considerado ilegal e a Ford obrigada a renunciar a utilização do óleo vegetal como combustível para seus veículos.

Outros

Como já dito, da maconha pode-se extrair 25 mil produtos de uso essencial para a sociedade moderna. No mercado desde 1998, a companhia inglesa Motor Hemp se especializou no cultivo do cânhamo com fins comerciais e começou produzindo papéis especiais feitos de cânhamo. Depois, a empresa passou a fazer tecidos, roupas, acessórios e, desde o começo deste ano, diversificou-se totalmente: além das comidas, produz xampus, condicionadores, hidratantes para pelé, livros, cadernos, tecidos e comida pra cachorro, tudo de cânhamo. Até mesmo cerveja de maconha, feita por outras fábricas, a Mother Hemp comercializa. Uma, chamada Green Leaf Lager, usa óleo de cânhamo para alterar o sabor da bebida.

A fibra está sendo aproveitada ainda em pranchas de esquiar na neve, as snowboards.

Na Suíça, a idéia foi transformar as folhas em xampus e cremes faciais. Tanto na Europa como nos Estados Unidos, se utilizam as sementes para obter prateleiras inteiras de supermercado: detergentes, fertilizantes, diversos óleos, molhos comestíveis e queijo vegetal. A Daimler-Benz mantém uma plantação de Cannabis na cidade de Ulm. Além de combustível, pesquisa, na fibra do cânhamo, substitutos degradáveis para a fibra de vidro e os plásticos das carrocerias. Os engenheiros não param de inventar novas utilizações da planta: os painéis de bordo das novas Mercedes e BMW são de plástico composto em parte de cânhamo, um material leve, pouco inflamável e reciclável; fabricantes de barcos, de embalagens e de eletrodomésticos também se lançam na produção de materiais de plástico à base de cânhamo e na fabricação da lã de cânhamo.

Cânhamo como alternativa ambientalOs tecidos de cânhamo são, ao contrario de seus substitutos sintéticos, frescos, absorventes e biodegradáveis. Portanto além de mais confortáveis são mais ecológicos. Fazer papel de polpa de cânhamo diminuiria muito a pressão sobre as florestas nativas, devido a substituição do eucalipto. O óleo da semente de Cannabis é ambientalmente correto que os óleos a base de petróleo. Segundo ambientalistas, o combustível de cânhamo é muito mais limpo que a gasolina, eliminando 80% menos de gases. A Cannabis é uma matéria-prima estratégica para a sociedade sustentável. Ao contrário do petróleo, é um recurso renovável e limpo. Seu cultivo não necessita de agrotóxicos e tem alta produtividade, pois cresce em no máximo 110 dias (podendo ser associado a outras culturas). A Cannabis favorece o princípio ecológico do desenvolvimento de regiões auto-sustentáveis, com plantações e fábricas lado a lado.

5. Conclusão

Por conta de uma legislação caótica e retrógrada estamos na contra mão da tecnologia e travamos uma batalha sem nexo contra uma prática de cultivo que só traria riqueza, gerando empregos e reaquecendo a economia nacional, ou seja, quem perde por conta disso é a própria sociedade.

1 Comentário

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Olá Wladimir,

Sou Engenheiro Ambiental e atualmente estou cursando Engenharia Civil na Universidade de Sorocaba.

Gostaríamos de fazer um estudo aprofundado sobre o Cânhamo, mas nos deparamos com as barreiras legais, de como você bem citou é "idiota, sem sentido ou lógica!"

Podemos conversar melhor sobre isso, segue abaixo meu contato:
efraim_tanzi@hotmail.com

Muito obrigado e parabéns pela publicação. continuar lendo